sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

                    Atividade realizada para a Interdisciplina: Desenvolvimento e Aprendizagem sob o enfoque da Psicologia I


Conceitos de desejo de saber, transferência e contratransferência e suas repercussões na sala de aula.
O encontro entre o que foi ensinado e a subjetividade de cada um é que torna possível o pensamento renovado, a criação, a geração de novos conhecimentos. Esse mundo desejante, que habita diretamente cada um de nós, estará sendo preservado cada vez que um professor renunciar ao controle, aos efeitos de seu poder sobre seus alunos. Estará preservado cada vez que um professor se dispuser a desocupar o lugar de poder em que um aluno o coloca necessariamente no início de uma relação pedagógica, sabendo que, se for atacado, por isso deverá reprimir tais manifestações agressivas. Ao contrário, saberá que estão em jogo forças que ele não conhece em profundidade, mas que são muito importantes para a superação do professor como figura de autoridade e indispensáveis para o surgimento do aluno como ser pensante. Kupfer  Página 99

No livro de Kupfer, fica bem definido que não há aprendizagem sem a figura do professor. Sendo a relação professor aluno imprescindível para que esta ocorra. Considerando a transferência que se estabelece na relação psicanalítica, como referencial para a observação do que ocorre na relação professor/aluno. Ao referir-se ao conceito de transferência, na apresentação do livro, Paulo César Souza, historiador sintetiza as ideias de Kupfer: 
O aluno transfere para o professor os sentimentos carinhosos ou agressivos da sua relação com os pais. Conscientemente ou não, o professor utiliza a ascendência que assim adquire sobre o aluno, para transmitir ensinamentos, valores, inquietações. Pois não é verdade que os professores de que mais recordamos, com quem mais aprendemos, são aqueles que melhor nos seduziram? Na escola, com na vida, nós aprendemos por amor a alguém. Paulo César Souza, apresentação do livro.  FREUD E EDUCAÇÃO Kupfer. Página 7
Desta forma inferimos que ao estabelecer uma leitura da educação, a autora direciona as observações e olhar não para aprendizagens de conteúdo, mas as interações que ocorrem na sala de aula, delineando a transferência na relação/ professor aluno.
Que são transferências, perguntava Freud, no epílogo de Análise fragmentária de uma histeria, escrito em 1901. E ele próprio respondia: São reedições dos impulsos e fantasias despertadas e tornadas conscientes durante o desenvolvimento da análise e que trazem como singularidade característica a substituição de uma pessoa anterior pela pessoa do médico. Ou, para dizê-lo de outro modo: toda uma série de acontecimentos psíquicos ganha vida novamente, agora não mais como passado, mas como relação atual com a pessoa do médico.  Kupfer página 88
Kupfer refere-se à questão transferencial como apropriação inconsciente de uma determinada forma ou objeto (enquanto equivalente simbólico), no interior de uma relação, para esvaziá-la e atribuir-lhe um sentido próprio e particular.
Para Aquino, que abordou o enfoque psicanalítico da educação com base nas teorias de Kupfer, a transferência pode ser explicitada da seguinte forma:
Encarada como principal vetor das relações humanas em geral, a transferência designa a reedição inconsciente uma relação atual, de protótipo das relações infantis, onde impulsos e fantasias endereçados a figuras primitivas são reconstituídos e presentificados na relação com outro. Aquino. Relação Professor-aluno: do pedagógico ao institucional.  Página 35

Conceituar a transferência que ocorre entre aluno e professor, significa compreender que as ações são determinadas pelos conteúdos inconscientes. Pois a transferência é uma manifestação destes conteúdos.  Minha presença atua sobre estes conteúdos, ocasionando ações que são dirigidas aos objetos de suas ligações primárias.
Alícia Fernandez, ao conceituar aprendizagem, coloca em evidência o desejo: A aprendizagem é um processo que se significa familiarmente, ainda que se aproprie intervindo o organismo, o corpo, a inteligência e o desejo do aprendente e também do ensinante, mas o desejo é necessariamente o desejo do outro. Fernandez, Alícia. A inteligência aprisionada Página 116
Bastante elucidativas as afirmações desta autora para entendermos  como ocorre a aprendizagem, pois muitas vezes procuramos entender como  o aluno aprende, fixando nosso olhar somente para os métodos, sem nos determos na  subjetivação deste processo. Alicia Fernandez então aponta o que está envolvido na aprendizagem: Para que haja aprendizagem, intervém o nível cognitivo e o desejante, além do organismo e do corpo... Enquanto a inteligência se propõe a apropriar-se do objeto conhecendo-o, generalizando-o, incluindo-o em uma classificação, o desejo se proporia a apropriar-se do objeto, representando-o. Junto com a satisfação e o gozo que implica em conseguir o objeto, aparece o desprazer e a necessidade de buscar outro objeto, continuando assim a circulação do desejo. Alícia Fernandes. A inteligência aprisionada. Páginas 74, 75
Aquino, afirma como ocorre: Assim, o professor se definiria como depositário de um investimento libidinal do aluno, e suporte de um deslocamento de sentido  e poder à sua figura. O fato mesmo de o professor ocupar a posição de ideal de ego do aluno é o que lhe conferiria o caráter de autoridade, e com o qual o aluno buscaria identificar—se. Relação Professor-aluno: do pedagógico ao institucional.  Página 35
Kupfer cita o autor Miller para explicitar o fenômeno da transferência na relação professor aluno: Miller afirma que a transferência, no sentido psicanalítico, se produz quando o desejo se aferra a um elemento muito particular, que é a pessoa do analista. Parafraseando-o, podemos dizer que na relação professor-aluno, a transferência se produz quando o desejo de saber do aluno se aferra a um elemento particular, que é a pessoa do professor. Kupfer Página 91

Referências:
Aquino, Júlio Groppa. Relação Professor-aluno: do pedagógico ao institucional. São Paulo. Editora Summus. 1996
Fernandez, Alicia. A inteligência aprisionada. Porto Alegre. Artes  médicas, 1991
Kupfer, Maria Cristina. Freud e  a educação: o mestre do impossível.São Paulo.  Scipione. 1989



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