Educação de jovens e adultos
Entrevistas e Síntese Reflexiva
O presente trabalho refere-se
a um estudo de campo, onde através de entrevistas estruturadas, fizemos a
escuta de 03 alunos da EJA. O objetivo deste trabalho de campo foi resgatar pelos relatos dos sujeitos sua identidade
como estudantes da EJA. Na leitura da história de sua escolaridade e nas suas
considerações sobre este processo, refletirmos sobre nossa prática docente. Ao aproximar nosso olhar
sobre estas histórias de vida , realizada pela observação destes espaços
escolares vamos tecendo relações entre as histórias que surgem , observando e
refletindo sobre nossas práticas em sala
de aula, e assim , criamos possibilidades e alternativas para nossa atuação
docente.
Para fundamentar este
trabalho de campo, utilizamos o referencial teórico proposto pela
Interdisciplina da EJA/ Educação de Jovens e Adultos PEAD UFRGS- 2018. Esta serve como aporte teórico para
estabelecer um panorama sobre a história das políticas para a EJA no Brasil, identificar
as concepções de educação com suas práticas e ideologias, uma reflexão crítica
sobre a importância de temas geradores, proporcionando também uma reflexão
sobre o trabalho pedagógico de Alfabetização, o que possibilita que este estudo
seja uma análise crítica do contexto atual da EJA.
Os
alunos da EJA compostos de Jovens e adultos são sujeitos de uma história de
vida pessoal que acarreta reflexões sobre suas vivências, desenvolvimento de
habilidades especificas tanto na vida pessoal ou profissional, Desta forma,
conforme Oliveira ( 1999) ao
descrever os estudantes da EJA ressalta
suas especificidades culturais. Afirma, o que os identifica são suas
homogeneidades dentro das diversidades culturais de cada um. As
vivências pessoais trazem experiências que estabelecem muitas especificidades.
Estabelecer categorias muitos gerais produz estereótipos que generalizam este
grupo. Entender os traços culturais e
sociais devem instrumentalizar o professor para uma leitura da
historicidade . Os alunos chegam a EJA marcados pela exclusão
da escola , que não os acolheu no sistema regular de ensino, exatamente por
trabalhar com conteúdos e métodos engessados e descontextualizados.
Neste sentido é
que se pode dizer, conforme afirmado anteriormente, que o problema da educação
de jovens e adultos remete, primordialmente, a uma questão de especificidade
cultural. É necessário historicizar o objeto da reflexão pois, do contrário, se
falarmos de um personagem abstrato, poderemos incluir, involuntariamente, um
julgamento de valor na descrição do jovem e do adulto em questão: se ele não
corresponde à abstração utilizada como referência, ele é contraposto a ela e
compreendido a partir dela, sendo definido, portanto, pelo que ele não é. OLIVEIRA, p.61.1999
Através
da escuta dos relatos orais dos alunos , buscamos evidências do significado da
escolarização regular para estes alunos, bem como sua realidade sócio-cultural,
sua capacidade de reflexão sobre o vivido e como esta etapa de escolarização
produziu subjetivações em suas identidades.
Um aspecto bastante
relevante para a abordagem do significado da escolarização na vida dos alunos
foi a resposta a questão sobre o relato das experiências como alunos, as
recordações. Vejamos o relato de Paula:
Nunca gostei muito de estudar,
mas durante o ensino fundamental, frequentava as aulas normalmente, sem
problemas, embora gostava muito de faltar aulas.
Durante o ensino médio, havia
muita competição de vaidade entre as meninas. Gostava de me arrumar, mas nunca
fui muito inteligente, então passei a me sentir meio excluída do grupo das
meninas. Isso me incomodava muito e passei a piorar nos estudos, até que chegou
um dia que não quis mais ir na aula, me sentia uma burra. Paula- 26 anos
No relato da aluna, fica evidenciada sua vida escolar, a escola
regular com suas sistematizações e método tradicional, não faziam sentido para
ela. No entanto se refere a esta
realidade como uma escolha sua, sem refletir sobre o sistema de escolarização.
Continua o relato justificando sua evasão da escola, pois se julgava “muito
burra”.
Na continuidade do relato ao afirmar como era o ensino afirma : Acho que era bom, eu é que não gostava de
estudar.
No relato de Paula esta a
subjetivação causada pelo discurso escolar. Um significado é construído pelas
afirmações e ações de professores que
produziram na aluna este distanciamento da escolarização como capaz de
promover a construção de conhecimento.
O relato evidencia a realidade da maioria dos Jovens que chegam às salas
da EJA, são eles os jovens excluídos do Sistema regular de ensino. A exclusão
do ensino ocorre pela avaliação com modelos classificatórios como a reprovação ou multi
repetência, mas a forma mais grave de exclusão ocorre pela ineficácia dos
métodos de ensino que não possibilitam a construção de conhecimentos. São
métodos tradicionais, privilegiando a transmissão de informações pelo professor
e devolução desta de forma direta, privilegiando a cultura escolar em
detrimento da multiculturalidade dos alunos. A ineficiência em promover a
aprendizagem, agravada pelo sistema classificatório de avaliação , estigmatiza,
rotula e exclui.
Esta exclusão causada pelo sistema de avaliação classificatória,
discriminatória e excludente fica evidenciada no relato de Márcia:
No
ensino fundamental, tive que repetir o ano e parei de estudar. No ensino médio
engravidei e fiquei com vergonha. Então achei melhor parar de estudar
novamente.
A marca da evasão do ensino regular
fica marcada pela reprovação, ‘tive que repetir’. As práticas pedagógicas
diretivas, tradicionais, baseadas em memorização de conteúdos , são baseadas em
categorias que classifica os alunos que são capazes ou reprova os incapazes .
Este modelo não possibilita alternativas para que a produção de conhecimento
ocorra., somente rotula e expulsa.
A
educação fundamentada em práticas pedagógicas diretivas. Com modelos de
avaliação classificatória, marcaram a escolarização de Jessica e de Claudia.
Este modelo opõem-se as concepções de alfabetização preconizadas por Freire. Para
Freire a alfabetização é um ato de conhecimento de criação e não de memorização
mecânica. O educando não é uma pasta onde são inseridos conceitos formados,
para que aja essa construção da aprendizagem alfabética é preciso haver uma
relação com a realidade que vive.
É preciso desenvolver temas geradores
que condizem com a realidade vivida pelo educando com o ato de aprender, o
diálogo é a melhor forma de desenvolver o pensamento critico. “Através do
diálogo podemos olhar o mundo e a nossa existência em sociedade como processo,
algo em construção, como realidade inacabada e em constante transformação.
O alunos que chegam a EJA
possuem marcas da exclusão, causada pelo sistema
escolar que não os acolheu e que os estigmatizou e categorizou como incapazes.
Para reconfigurar e ressignificar o espaço escolar como espaço de construção de
conhecimento , de reflexão e de leitura da realidade necessitam que as práticas
docentes estejam fundamentadas em temas significativos, que façam a leitura de
sua historicidade que valorizem seus saberes e experiências fora do conteúdo
formal da escola. Para Gomes, 2013, as perspectivas Interacionistas de Vygotsky ( 2008) e de Alfabetização de
Freire , levam a compreender os jovens e adultos analfabetos e/ou não
escolarizados como sujeitos históricos, sociais e culturais, dotados de
conhecimentos e experiências acumulados ao longo da vida, e que necessitam da
intervenção de instituições culturais capazes de desencadear o desenvolvimento
de suas potencialidades. São, portanto, não objetos depositários de
conhecimentos, mas sujeitos capazes de construir conhecimento e aprendizado.