segunda-feira, 18 de junho de 2018

Trabalho de campo/ Educação de Jovens e Adultos no Brasil

Educação de jovens e adultos
Entrevistas e Síntese Reflexiva



O presente trabalho refere-se a um estudo de campo, onde através de entrevistas estruturadas, fizemos a escuta de 03 alunos da EJA. O objetivo deste trabalho de campo foi resgatar  pelos relatos dos sujeitos sua identidade como estudantes da EJA. Na leitura da história de sua escolaridade e nas suas considerações sobre este processo, refletirmos sobre nossa  prática docente. Ao aproximar nosso olhar sobre estas histórias de vida , realizada pela observação destes espaços escolares vamos tecendo relações entre as histórias que surgem , observando e refletindo  sobre nossas práticas em sala de aula, e assim , criamos possibilidades e alternativas para nossa atuação docente.
Para fundamentar este trabalho de campo, utilizamos o referencial teórico proposto pela Interdisciplina da EJA/ Educação de Jovens e Adultos PEAD UFRGS- 2018.  Esta serve como aporte teórico para estabelecer um panorama sobre a história das políticas para a EJA no Brasil, identificar as concepções de educação com suas práticas e ideologias, uma reflexão crítica sobre a importância de temas geradores, proporcionando também uma reflexão sobre o trabalho pedagógico de Alfabetização, o que possibilita que este estudo seja uma análise crítica do contexto atual da EJA.

 Os alunos da EJA compostos de Jovens e adultos são sujeitos de uma história de vida pessoal que acarreta reflexões sobre suas vivências, desenvolvimento de habilidades especificas tanto na vida pessoal ou profissional, Desta forma, conforme Oliveira ( 1999)   ao descrever  os estudantes da EJA ressalta suas especificidades culturais. Afirma, o que os identifica são suas homogeneidades dentro das diversidades culturais de cada um. As vivências pessoais trazem experiências que estabelecem muitas especificidades. Estabelecer categorias muitos gerais produz estereótipos que generalizam este grupo.  Entender os traços culturais e sociais devem instrumentalizar o professor para uma leitura da historicidade  . Os  alunos chegam a EJA marcados pela exclusão da escola , que não os acolheu no sistema regular de ensino, exatamente por trabalhar com conteúdos e métodos engessados e descontextualizados.
Neste sentido é que se pode dizer, conforme afirmado anteriormente, que o problema da educação de jovens e adultos remete, primordialmente, a uma questão de especificidade cultural. É necessário historicizar o objeto da reflexão pois, do contrário, se falarmos de um personagem abstrato, poderemos incluir, involuntariamente, um julgamento de valor na descrição do jovem e do adulto em questão: se ele não corresponde à abstração utilizada como referência, ele é contraposto a ela e compreendido a partir dela, sendo definido, portanto, pelo que ele não é. OLIVEIRA, p.61.1999


Através da escuta dos relatos orais dos alunos , buscamos evidências do significado da escolarização regular para estes alunos, bem como sua realidade sócio-cultural, sua capacidade de reflexão sobre o vivido e como esta etapa de escolarização produziu subjetivações em suas identidades.
Um aspecto bastante relevante para a abordagem do significado da escolarização na vida dos alunos foi a resposta a questão sobre o relato das experiências como alunos, as recordações. Vejamos o relato de Paula:
Nunca gostei muito de estudar, mas durante o ensino fundamental, frequentava as aulas normalmente, sem problemas, embora gostava muito de faltar aulas.
            Durante o ensino médio, havia muita competição de vaidade entre as meninas. Gostava de me arrumar, mas nunca fui muito inteligente, então passei a me sentir meio excluída do grupo das meninas. Isso me incomodava muito e passei a piorar nos estudos, até que chegou um dia que não quis mais ir na aula, me sentia uma burra. Paula- 26 anos

No relato da aluna, fica evidenciada sua vida escolar, a escola regular com suas sistematizações e método tradicional, não faziam sentido para ela. No entanto se refere a  esta realidade como uma escolha sua, sem refletir sobre o sistema de escolarização. Continua o relato justificando sua evasão da escola, pois se julgava “muito burra”.
Na continuidade do relato ao afirmar como era o ensino afirma : Acho que era bom, eu é que não gostava de estudar.

No relato  de Paula esta a subjetivação causada pelo discurso escolar. Um significado é construído pelas afirmações e ações de professores  que produziram na aluna este distanciamento da escolarização como  capaz de  promover a construção de conhecimento.  O relato evidencia a realidade da maioria dos Jovens que chegam às salas da EJA, são eles os jovens excluídos do Sistema regular de ensino. A exclusão do ensino ocorre pela avaliação com modelos  classificatórios como a reprovação ou multi repetência, mas a forma mais grave de exclusão ocorre pela ineficácia dos métodos de ensino que não possibilitam a construção de conhecimentos. São métodos tradicionais, privilegiando a transmissão de informações pelo professor e devolução desta de forma direta, privilegiando a cultura escolar em detrimento da multiculturalidade dos alunos. A ineficiência em promover a aprendizagem, agravada pelo sistema classificatório de avaliação , estigmatiza, rotula e exclui.
Esta exclusão causada pelo sistema de avaliação classificatória, discriminatória e excludente fica evidenciada no relato de Márcia:
No ensino fundamental, tive que repetir o ano e parei de estudar. No ensino médio engravidei e fiquei com vergonha. Então achei melhor parar de estudar novamente.
          A marca da evasão do ensino regular fica marcada pela reprovação, ‘tive que repetir’. As práticas pedagógicas diretivas, tradicionais, baseadas em memorização de conteúdos , são baseadas em categorias que classifica os alunos que são capazes ou reprova os incapazes . Este modelo não possibilita alternativas para que a produção de conhecimento ocorra., somente rotula e expulsa.
A educação fundamentada em práticas pedagógicas diretivas. Com modelos de avaliação classificatória, marcaram a escolarização de Jessica e de Claudia. Este modelo opõem-se as concepções de alfabetização preconizadas por Freire. Para Freire a alfabetização é um ato de conhecimento de criação e não de memorização mecânica. O educando não é uma pasta onde são inseridos conceitos formados, para que aja essa construção da aprendizagem alfabética é preciso haver uma relação com a realidade que vive.
            É preciso desenvolver temas geradores que condizem com a realidade vivida pelo educando com o ato de aprender, o diálogo é a melhor forma de desenvolver o pensamento critico. “Através do diálogo podemos olhar o mundo e a nossa existência em sociedade como processo, algo em construção, como realidade inacabada e em constante transformação.
O alunos que chegam a EJA  possuem  marcas da exclusão, causada pelo sistema escolar que não os acolheu e que os estigmatizou e categorizou como incapazes. Para reconfigurar e ressignificar o espaço escolar como espaço de construção de conhecimento , de reflexão e de leitura da realidade necessitam que as práticas docentes estejam fundamentadas em temas significativos, que façam a leitura de sua historicidade que valorizem seus saberes e experiências fora do conteúdo formal da escola. Para Gomes, 2013, as perspectivas Interacionistas de Vygotsky ( 2008)  e de Alfabetização de Freire , levam a compreender os jovens e adultos analfabetos e/ou não escolarizados como sujeitos históricos, sociais e culturais, dotados de conhecimentos e experiências acumulados ao longo da vida, e que necessitam da intervenção de instituições culturais capazes de desencadear o desenvolvimento de suas potencialidades. São, portanto, não objetos depositários de conhecimentos, mas sujeitos capazes de construir conhecimento e aprendizado.



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